100 METROS

Por Márcio Santim

Esse filme baseado em fatos reais traz alguns importantes elementos para o analisarmos quanto aos seus aspectos motivacionais em que a vontade de superação pessoal prevalece sobre os limites impostos por acontecimentos negativos sucedidos durante a vida.

100 metros é uma produção cinematográfica luso-espanhola de grande sucesso mundial dirigida por Marcel Barrena cuja estreia ocorreu na Espanha em 2016 e traz a história verídica enfrentada pelo publicitário Ramón Arroyo que aos 35 anos de idade recebeu o diagnóstico de esclerose múltipla.

O ator Dani Rovira interpreta Ramón que como tantas outras pessoas na atualidade possuía enorme obsessão pelo trabalho, altos níveis de estresse, e hábitos sedentários enraizados em seu cotidiano.

Ramón começa a notar em si algumas alterações motoras envolvidas na execução de simples atos, tais como segurar um garfo ou amarrar um tênis. A partir disso, submete-se a diversos exames médicos para detectar as razões dessas anomalias que lhe começam a causar preocupações.

O diagnóstico não tarda a ser estabelecido e para sua indignação, tratava-se de uma séria doença neurológica degenerativa para a qual não havia cura, mas sim apenas alguns tratamentos paliativos destinados para retardar a sua evolução.

Imediatamente, Ramón começa a realizar as terapias indicadas ao caso, mas a sua médica o alerta sobre a gravidade da doença e que seus exames apontavam para a possibilidade de ocorrer sintomas ainda mais sérios do que os apresentados por ele naquele momento.

Durante a terapia em grupo, um dos pacientes, revoltado com a sua doença, diz para Ramon que o seu futuro seria marcado pela utilização de cadeira de rodas e que em breve ele nem sequer conseguiria caminhar a distância de 100metros.

Esse cenário nem um pouco animador delineado pelo seu companheiro de terapia permaneceu martelando na cabeça de Ramon, convertendo a caminhada dessa distância no seu primeiro obstáculo a ser superado, a despeito de todas as limitações motoras apresentadas.

Com o apoio da sua esposa e de seu sogro, Ramón, além de começar a fazer os tratamentos convencionais, resolve de maneira obstinada a se preparar para enfrentar um enorme desafio: participar e concluir o Ironman, uma prova de extrema resistência física e mental que consiste em nadar 3,8 km; pedalar 180 km e correr 42 km.

Após vários desentendimentos tidos com o seu sogro que era professor de educação física, eles acabam se conciliando e estabelecendo uma espécie de pacto de confiança, relacionado ao fato de que a persistência por parte de Ramón em realizar seus treinamentos, apesar da sua grave condição clínica, seria fundamental para que ele alcançasse o seu objetivo de terminar essa dificílima prova.

Sem dúvida que um dos fatores que motivou Ramón a executar tal empreendimento foi enfrentar a alarmante perspectiva de num futuro bem próximo permanecerem cadeira de rodas e não chegar sequer conseguir caminhar a distância de 100metros.

É interessante observarmos como as reações das pessoas perante prognósticos trágicos podem se apresentar de formas completamente distintas.

Seria até de se esperar que para a maioria dos indivíduos, um parecer médico extremamente negativo como esse se equivalesse a uma sentença de morte, provocando neles quadros depressivos em que a estagnação ou o desespero certamente apareceriam como consequências emocionais negativas.

Porém, há pessoas, tal como foi o caso de Ramón, que conseguem lidar comesse problema de modo completamente diferente, fazendo com que situações como essas se tornem o estopim para uma revolução pessoal, no sentido de tudo ser possível mediante vontade, dedicação e perseverança; até mesmo enfrentar os limites estabelecidos pela ciência, a debilidade física e a descrença das pessoas que estão a sua volta.

Na realidade, temos mínimas ideias sobre os patamares que a nossa consciência e, por decorrência, nossos comportamentos podem nos levar. Até onde a mente pode despertar os processos de cura inerentes ao nosso organismo biológico, seja por meio da fé, da automotivação, da força de vontade e de outros impulsos psíquicos.

Do ponto de vista psicológico, um elemento essencial a ser citado diz respeito ao fato dessas pessoas conseguirem mudar totalmente o foco da sua atenção. Em vez delas ficarem pensando apenas sobre a doença que as acometem, as suas visões se expandem e centralizam-se naquilo que desejam realizar naquele momento, olvidando-se inclusive de supostos empecilhos que amiúde emergem diante de seus caminhos.

Após essa etapa, apresenta-se como indispensável traçar todo o planejamento necessário para que os seus objetivos possam ser perseguidos e alcançados. E para isso, é muito importante o apoio do meio que está ao redor do paciente, tal como no caso do filme em que a atuação do sogro de Ramón foi essencial para o seu êxito pessoal.

Muitas vezes, infelizmente, ocorre o contrário nesses tipos de situações, pois as pessoas mais próximas apresentam comportamentos que expressam exclusivamente sentimentos de compadecimento, que podem ser tomados por aqueles que estão enfrentando algum tipo de doença como se fossem a legitimação da sua incapacidade para desenvolver determinadas atividades consideradas normais pela sociedade.

Em outras palavras, além de enfrentarem as limitações decorrentes de certos acometimentos patológicos, os enfermos ainda têm que superar os diversos tipos de barreiras sociais que se impõem constantemente frente às suas metas de superação.

No entanto, se essas pessoas permanecerem apenas no plano do desejo e do planejamento, as possibilidades de se frustrarem se tornam iminentes. Assim, é necessário ir além, dar o passo decisivo para se atingir os seus objetivos que é a práxis (ação); executar aquilo que foi ardentemente desejado e minuciosamente planejado.

É importante mencionar que para a ação se tornar possível também será imprescindível continuar quebrando as várias barreiras e estigmas sociais existentes. A luta é contínua, com batalhas sendo vencidas de forma árdua e gradativa.

Frequentemente também ocorrem imprevistos e infortúnios que fazem com que haja necessidade de novos e contínuos replanejamentos por parte de todos os envolvidos no empreendimento, inclusive dispondo-se ao árduo trabalho de recomeçar tudo a partir do início da caminhada.

O perfil psicológico desses indivíduos tem mostrado que diante de cada nova dificuldade surgida, a motivação e o desejo de superação aumentam exponencialmente, existindo pouco espaço para sentimentos de desânimo e frustração.

Mas gostaria de salientar que de modo geral apenas consideramos e valorizamos o resultado final da missão. No caso do filme que não deixa de ser uma realidade representada, o clímax está no fato do telespectador ver Ramón cruzar a linha de chegada e conquistar o seu objetivo.

E no cotidiano, na maior parte das situações, também temos fortes tendências para apenas olharmos e valorizarmos a conquista. Quase nunca focamos nossa atenção para os processos, os investimentos e sacrifícios inerentes para que alguém conseguisse atingir algum objetivo ou concretizar determinado sonho.

Além disso, praticamente passa despercebido o início de qualquer jornada, ou seja, o momento em que determinada pessoa se propõe a percorrer os seus primeiros 100 metros, que a princípio pode até parecer irrisório, mas pergunto ao leitor sobre quantas vezes deixamos de iniciar uma jornada em razão do comodismo de não nos dispormos a mudar rotinas, formas de pensar e de experimentara vida.

Sim é preciso muita coragem e determinação para dar os primeiros passos. Talvez, em um primeiro momento, até mesmo o planejamento possa ser abolido, mas de forma alguma podem ser dispensados o desejo e o ímpeto que se desdobram na iniciativa comportamental.

Ao observar demais as etapas e tentar antecipar todos os processos envolvidos para se atingir os objetivos estabelecidos, há grande possibilidade de as pessoas desanimarem antes de começarem a busca pelos seus sonhos, permanecendo imóveis na linha de largada.

Tudo deve ser realizado de forma gradual e em razão das variáveis envolvidas não serem estáticas, o planejamento deve estar presente não apenas nos 100 metros iniciais, mas ao longo de toda a jornada. Para que qualquer planejamento seja bem-sucedido devem haver constantes reavaliações, consequentes replanejamentos e a disposição para recomeçar quando necessário.

A ansiedade para se atingir o mais cedo possível determinadas metas estabelecidas somente atrapalha as pessoas, fazendo com que abandonem precocemente a prova que se dispuseram a participar.

Nesse sentido, é muito comum o suposto fracasso ocorrer logo no início da prova; seja por se largar rápido demais no afã de chegar imediatamente ao destino, queimando a largada; seja por nem sequer conseguir largar em razão de se ter gasta toda a energia emocional disponível, antecipando demasiadamente os hipotéticos percalços a serem encontrados pelo caminho.

Por conta disso, o título desse filme demonstra a sua grande pertinência, pois na realidade o elemento decisivo que impulsionou Ramon a se superar para obter a sua grande vitória pessoal, não foi inicialmente a conclusão de uma prova de Ironman, mas o seu ímpeto e mérito em enfrentar uma limitação aparentemente simples: percorrer os simbólicos 100 metros e depois disso, porque não? Um “pouquinho” mais...

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por márcio santiM

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