DESMISTIFICANDO
O ÓCIO – PARTE 02

Por Marcio Santim

Existe toda uma cultura, na maior parte dos países do mundo, em que o trabalho, mesmo no século XXI, ainda arrasta consigo princípios de dominação que atingem certos patamares, a ponto de nos permitir caracterizá-lo como uma forma de escravismo contemporâneo.

Dentro dessa lógica de exploração social em que muitas vezes fica difícil identificarmos quem efetivamente é o senhor e o servo nas intricadas redes profissionais, o ócio criativo soa como algo estranho e oposto à concepção do trabalho, quando justamente seria esse tipo de atividade que nos poderia fornecer elementos preventivos contra o adoecimento emocional relacionado às praxes laborais.

No caso dos diversos problemas psicológicos existentes, é muito prático e cômodo considerar a etiologia dessas doenças exclusivamente como disfunções orgânicas desencadeadas por incapacidades pessoais diante das adaptações necessárias frente a uma realidade altamente competitiva e consequentemente individualista.

Em um mundo que, para fazer uma estimativa grotesca, diante dos profundos avanços tecnológicos, para cada novo emprego criado concomitantemente são eliminados milhares, a competição profissional assume um caráter ímpar, pois já não tem se definido como um meio para ascensão a determinados níveis na escala social, mas sim direcionada fundamentalmente para a manutenção da própria vida mediante árduas lutas para a conquista e garantia do emprego.

Para atenuar os vários distúrbios psicológicos decorrentes dessa situação e inclusive levando-se em conta outras condições estressantes existentes no cotidiano, temos uma cultura que naturaliza a utilização de medicamentos controlados (antidepressivos, ansiolíticos) para se lidar com problemas cujas origens são sociais.

Aliás, esses tipos de drogas legalizadas são as mais comercializadas pela indústria farmacêutica. Parece fácil: a receita seria tomar um desses potentes psicotrópicos, a fim de que todos os problemas fossem resolvidos. Com isso, não são questionados os fatores sociais e culturais que contribuem significativamente para o adoecimento das pessoas, tais como as relações profissionais em que metas e mais metas são constantemente estabelecidas para serem atingidas.

A saúde mental está intimamente relacionada ao nível de qualidade de vida experimentando pelas pessoas e certamente com os tipos de relações estabelecidas no trabalho. Em razão do trabalho ocupar uma grande parte do tempo disponível aos indivíduos, a qualidade da sua dinâmica constitui-se como elemento crucial para a prevenção do surgimento das mais variadas psicopatologias.

Diante das novas realidades existentes na sociedade, principalmente no que se referem ao alto desenvolvimento tecnológico, a concepção sobre o trabalho deve ser modificada radicalmente, em decorrência tanto da importância de questões subjetivas (manutenção do bem-estar psicológico) quanto de questões objetivas (evitar o crescimento dos índices de desemprego).

O conceito tradicional de trabalho tem se tornado exponencialmente obsoleto no mundo contemporâneo e precisa ser revisto nos seus aspectos teóricos e principalmente práticos. Precisamos repensá-lo globalmente de forma em que haja espaço para todos exercerem alguma função laboral e tempo para que as pessoas possam aprender a executar as novas atividades que surgem com uma velocidade supersônica no cenário atual.

No meu modo de ver, o entendimento sobre o que é o ócio criativo, a sua valorização e posterior implantação na rotina das pessoas, pode fazer toda a diferença dentro dessa nova realidade, para fins de se evitar desgastes emocionais e fazer com que o trabalho seja desenvolvido de forma prazerosa e não como meio de sacrifício, visando unicamente a garantia da sobrevivência.

O ócio criativo pode ser implantado e desenvolvido tanto dentro quanto fora dos ambientes de trabalho e primeiramente para isso há necessidade de se dispor às pessoas de uma maior parcela de tempo livre em que possam a aprender a utilizar esse espaço de tempo para aprender coisas novas de uma forma não impositiva e obrigatória.

Uma das características fundamentais existentes no ócio criativo relaciona-se ao fato desse tipo de educação proporcionar que os mais variados interesses comecem a surgir de forma espontânea nas pessoas, no sentido de se proporem a aprender e executar determinadas atividades sem imposições alheias a sua vontade.

Essas formas de comportamentos auxiliarão as pessoas a terem uma visão mais ampla do trabalho, não somente conhecendo a sua função social, mas principalmente sentindo a respectiva importância em termos coletivos. Sem dúvida, um meio que possibilite aos indivíduos o reconhecimento dos efeitos das suas atividades não somente na sua vida particular, mas igualmente em uma dimensão geral.

O ócio, diferentemente de sua concepção corrente, é um momento sério, pois nele ocorre parte significativa da formação cultural dos indivíduos. Entretenimento, trabalho e estudo são elementos indissociáveis da cultura.

Penso os conceitos de ócio e tempo livre como sinônimos. Para fins didáticos, podemos dividir a nossa vida em três momentos distintos: 1 – sono; 2 – trabalho; 3 – ócio. O tempo dedicado por cada pessoa aos referidos momentos varia significativamente. Em termos de média, o número oito seria o denominador comum desses três momentos, uma vez que a medicina afirma que oito é a média ideal de horas a serem dedicadas ao sono e a legislação registra como limite uma jornada diária de trabalho equivalente a oito horas. Restariam assim, teoricamente, oito horas para serem dedicadas ao ócio.

No entanto, sabemos que na realidade esses números não são absolutos, pois há pessoas que trabalham dez ou doze horas. Há pessoas que têm problemas de insônia e dormem três horas e assim seguem os casos específicos. Essa é a parte quantitativa referente ao tempo dedicado ao ócio que, sem dúvida, pode interferir muito na sua qualidade.

Como foi dito anteriormente, na nossa sociedade, o termo ócio adquiriu um aspecto negativo e precisamos desmistificar tal conceito. Ócio não significa apenas ficar sem fazer coisa alguma, deitado na rede, com a barriga para cima; pode ser isso também, mas certamente não se restringe a apenas esse comportamento.

Ócio é um conceito utilizado para definir aquele momento em que se realizam atividades não vinculadas ao trabalho, com exceção do sono. Como veremos em seguida, é um conceito extremamente plástico, maleável que não deve ser pensado de maneira abstrata e absoluta, isto é, deve ser analisado dentro de todo um contexto histórico, cultural e pessoal.

O momento trabalho, utilizado em termos conceituais para diferenciá-lo do ócio, está direta ou indiretamente vinculado a atividades economicamente produtivas, ou seja, uma atividade voltada fundamentalmente para a sobrevivência. Dessa forma, o trabalho doméstico não pode ser considerado ócio, pois se o marido trabalha fora e a mulher realiza os serviços domésticos ou vice-versa, o serviço realizado dentro do lar, contribui para a manutenção da família.

Assim sendo, se o casal trabalhasse fora, haveria a necessidade de se pagar alguém para realização do serviço doméstico. Tal argumento vale ainda mais se considerarmos a chamada dupla jornada em que muitas mulheres são obrigadas a enfrentar todos os dias por questões financeiras. Trabalhando fora e dentro de casa, o ócio fica seriamente comprometido.

Por outro lado, as diversas formas de trabalho voluntário realizadas pelas pessoas por caridade e prazer, sem vínculos empregatícios, podem ser consideradas como ócio criativo. Apesar de muitas vezes haver exigências quanto ao cumprimento de horários e obrigações, realiza-se o trabalho por livre e espontânea vontade.

Na próxima parte, falarei um pouco sobre o ócio criativo segundo a visão do sociólogo italiano Domênico De Masi.

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por márcio santiM

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