MÚSICA E O EXORCISMO DO PANDEMÔNIO

Por Antonio Pessotti

Não há quem não tenha ouvido a frase “Música faz bem”. Aliás, ela, a Música, é necessária no momento que passamos, de isolamento social devido à pandemia. É necessária porque nos ajuda a superar as crises emocionais, ganhar ânimo diante de situações tensas, passar o tempo, enfim.

Mas, será verdade tudo isso? O que a Ciência nos mostra? A prática nos convence há séculos, e, mais recentemente, com as manifestações na Europa durante os períodos mais críticos do isolamento social.A seguir, faço a exposição de três estudos recentes sobre a relação Música e Psicologia.

Susan Hallam (Psychology of Music, 2018) levanta várias questões: como a Música afeta nosso humor? Qual a melhor forma de desenvolver habilidades musicais? Como a definição de Música muda entre as culturas?

A autora explica que o campo da Psicologia da Música explora o impacto importante que a música tem em nosso cotidiano, e sua influência na sociedade, grupos e indivíduos. Esse campo de estudo demonstra como a Música pode beneficiar nossa atividade intelectual, saúde, bem-estar,além de examinar a habilidade musical como “dom” e algo que pode ser desenvolvido durante aprendizado e prática.

É notório que a Música aprimora nossa compreensão de humanidade e da vida moderna, e, segundo a autora, a Psicologia da Música nos mostra a significância da Música, e o poder que ela tem sobre nosso comportamento.

Swathi Swaminathan e E. Glenn Schellenberg (Emotion Review, 2015) discorrem sobre o fato da Música ser um Universal, algo conhecido por todo ser vivo (até mesmo, extraterrestres?), pois, ao menos parcialmente ela permite expressar emoções e regular os afetos. As associações entre música e emoção têm sido examinadas regularmente por pesquisadores da área da Psicologia da Música.

Os autores revisam achados recentes em três áreas:a) a comunicação e a percepção da emoção na música, b) as consequências emocionais do ouvir música, e c) fatores preditores das preferências musicais.

Ian Cross (Psychology of Music, 2014) discorre que há um consenso sobre o fato da música ser universal e comunicativa. O diálogo musical é considerado um elemento-chave em muitas práticas terapêuticas, porém,a ideia de que a música é um meio comunicativo tem pouca atenção nas Ciências Cognitivas, com poucas e limitadas pesquisas, e, consequentemente, com relevância limitada para a musicoterapia.

O autor usa evidências etnomusicológicas e uma compreensão da comunicação derivada do estudo da fala para esboçar uma estrutura na qual situar e entender a música como prática comunicativa.

Ele descreve alguns dos principais recursos da música como meio participativo interativo – incluindo arrastamento e intencionalidade flutuante – que podem ajudar a sustentar o entendimento da música como comunicativa e que podem ajudar a orientar abordagens experimentais na ciência cognitiva da música para esclarecer os processos envolvidos na comunicação musical e nas consequências do envolvimento na comunicação através da música para os indivíduos em interação.

Segundo o autor, isso sugere que o desenvolvimento de tais abordagens pode permitir que as ciências cognitivas forneçam uma compreensão mais abrangente e preditiva da música em interação, o que poderia ser um benefício direto para a musicoterapia.

O artigo de Orii McDermott, Martin Orrell, Hanne Mette Ridder (Aging and Mental Health, 2014) trata de aspectos clínicos,específicos à demência. Segundo o levantamento dos autores, apesar da popularidade das intervenções baseadas na música no tratamento da demência, há um conhecimento limitado de como e por que as pessoas com demência consideram a música benéfica para o seu bem-estar.

Os autores fizeram estudo qualitativo para desenvolver insights adicionais sobre as experiências musicais de pessoas com demência, e explorar o significado da música em suas vidas.

A pesquisa dividiu em grupos focais separados e entrevistas com (1) residentes em casas de repouso com demência e suas famílias, (2) clientes de pronto atendimentos com demência, (3) equipe de atendimento domiciliar e (4) musicoterapeutas. Os achados da análise temática foram investigados à luz de fatores psicossociais com o objetivo de desenvolver um modelo teórico sobre música na demência.

Os resultados relatados pelos autores foram seis. A acessibilidade da música para as pessoas em todas as fases da demência; os laços estreitos entre a música, a identidade pessoal e os eventos da vida; a importância da construção de relacionamentos através da produção musical foram particularmente destacados como valiosos.

Eles desenvolveram um modelo psicossocial da música na demência, que revelou a importância da música para apoiar a psicologia pessoal de pessoas com demência e a psicologia social do ambiente doméstico de cuidado. Esse estudo demonstrou que os efeitos da música vão além da redução dos sintomas comportamentais e psicológicos.

A preferência individual da música é preservada durante todo o processo de demência. Manter a conexão musical e interpessoal ajudaria a valorizar quem é a pessoa e manter a qualidade de sua vida.

Esses estudos, como exposto, demonstram que a Música realmente faz bem, praticando, ouvindo. Vai além do desenvolver nossa interioridade, vai até o outro, até a interação social. Esses tópicos já foram discutidos também por outra área: a Filosofia da Música. Mas, esse é outro assunto a ser desenvolvido, futuramente.

Vídeo de entrevista na integra:https://www.youtube.com/watch?v=YEgDz09Oooc&t=29s

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por márcio santiM

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