ARTE: UM DOS PRINCIPAIS CAMINHOS CONTRA A DESUMANIZAÇÃO

Por: Marcio Santim

Na maior parte das vezes, somos educados para conceber a arte apenas como uma forma de entretenimento. Porém, independentemente do seu campo de atuação, em termos de formação humana, a arte deveria produzir um efeito maior na constituição de nossa subjetividade ou, em outras palavras, na formação do nosso ser. A pressão social nos direciona fundamentalmente a pensarmos em termos de uma racionalidade prática no sentido de haver necessidade de tudo o que fazemos demandar por finalidades utilitárias. Contrariamente, se existe alguma finalidade na arte é a de nos humanizar, de nos tornar sensíveis a tudo que nos cerca. A capacidade de usufruir o ócio de maneira criativa vincula-se inclusive ao desenvolvimento de sensibilidades artísticas.

Infelizmente, nosso pensamento tem sido condicionado a funcionar apenas em sentido lógico e linear, sempre buscando nexos entre causa e efeito sobre aquilo que observamos no nosso meio. Esse fato também se reflete nos comportamentos apresentados, principalmente no que se refere ao estabelecimento de vínculos indissociáveis entre esforço e recompensas imediatas. Em outras palavras, em uma sociedade em que impera o imediatismo dos prazeres, acaba não havendo espaço para tempos de esperas.

Se nós queremos tudo e ainda para hoje, então o que nos resta é o vazio porque como indivíduos não podemos abraçar o todo,  no sentido de conseguir estar em diversos lugares ao mesmo tempo ou conquistar todos os bens destinados de forma heterônoma à realização da felicidade, oferecidos ostensivamente por meio do bombardeio midiático.

No entanto, a internet de certa forma por meio das redes sociais tem permitido esse tipo de concepção, criando uma falsa sensação de onipotência e onisciência em razão de nos permitir simultaneamente acompanhar e interagir com diversas pessoas e fatos ocorrendo em lugares diferentes. O resultado disso é que acabamos ficando dispersos e fragmentados, pois ao mesmo tempo, estamos e não estamos efetivamente em algum lugar ou na presença de alguma pessoa.

Queremos mais do que podemos e podemos mais do fazemos em razão de frequentemente deixarmos de realizar o mínimo permitido por nossas potencialidades, relacionadas àquelas “pequenas” coisas que estão ao nosso alcance e deveríamos por elas ser responsáveis. Tal forma de condicionamento manifestada sob uma aparente racionalidade nos coloca em uma espécie de prisão e embrutece nossa percepção sobre as coisas e também sobre as pessoas, incluindo nós mesmos.

A força dessa racionalidade advém do fato de se colocar como normalidade inquestionável a ser observada e seguida rigidamente pelas pessoas. Para romper com esse condicionamento, é necessário irmos além de trabalhar apenas o lado racional da nossa mente. Também é fundamental que possamos desenvolver nossas sensibilidades e emoções. E um desses caminhos está na apreciação e criação estética, isto é, no conhecimento, desenvolvimento e valorização da arte, seja por quaisquer meios em que ela esteja representada: música, escultura, poesia, fotografia etc.

Como mencionei no início do texto, a arte não pode ser considerada apenas com uma forma de divertimento. O seu grande potencial no momento em que se constitui de fato como uma criação artística, isto é, quando não se encontra restrita ao atendimento exclusivo de determinados interesses financeiros, está em nos retirar do nosso funcionamento automático e cotidiano, despertando-nos para algo que nos incite a abandonar o comodismo.

A arte como protesto às condições esclerosadas da existência em pró do direito de sonhar, essencial para as motivações autônomas do agir.
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